Ignorar os sentimentos é ter equilíbrio emocional?

É consenso geral que ter equilíbrio emocional gera mais qualidade de vida e oportunidades profissionais.

Recentemente, eu li que “a pessoa é contratada pelo que sabe e demitida pela forma como se comporta”. E eu acredito muito nisso porque é mais fácil treinar o funcionário para aprender aspectos técnicos de sua função, mas é bem mais desafiador treinar o seu comportamento. Treinar o comportamento leva mais tempo e exige mais disciplina e determinação.

Portanto, desenvolver o equilíbrio emocional deveria ser uma das primeiras habilidades a serem trabalhadas quando se pensa em iniciar a vida profissional.

Porém, apesar de tantas informações disponíveis percebo que, de fato, as pessoas acham que para ter equilíbrio emocional basta esconder ou ignorar seus sentimentos, que basta passar uma imagem de alguém com aparente tranquilidade frente aos conflitos e frustrações que isso será suficiente.

Vejo pessoas que frequentemente me dizem que são mais racionais do que emocionais.  E eu muito respeitosamente rio por dentro.

Isso não existe, sinto lhe dizer.

Em qualquer curso de neurociência ou temas correlatos você vai aprender que nós temos em nosso cérebro uma parte que controla nossas emoções chamado sistema límbico. Ele é o mais primitivo e é devido a ele que nossa espécie sobreviveu durante toda a sua evolução até o homem moderno.

Ao apresentar emoções, principalmente de raiva e medo fomos capazes de caçar e fugir de nossos predadores. Se fôssemos apáticos, tranquilos e sossegados frente aos predadores talvez nossa espécie nem tivesse chegado até aqui.

Esse sistema funciona independemente da sua vontade. Você não pode decidir por quem se apaixona, por exemplo, mas pode decidir se irá conversar com a pessoa em uma festa ou não.

O apaixonar-se é involuntário, depende de uma série de fatores que envolvem as suas memórias e representações psíquicas, mas abordar a pessoa é uma escolha que pode ter motivações racionais – “não vou falar com a pessoa porque sou casada” – por exemplo.

Importante ressaltar que as emoções são os impulsos físico-químicos que ocorrem em seu corpo frente a um estímulo, tais como o coração acelerar e as pernas tremerem. Mas para que o cérebro associe isso com paixão ou medo, precisa ter a interpretação do que vem pela frente.

Se for um carro em alta velocidade vindo na sua direção, você sentirá medo. Se for o amor da sua vida (ou crush), você sentirá paixão. E tanto um como o outro são sentimentos. Essa é a diferença entre emoção e sentimento.

Você vai me dizer:  “Mas Vanessa, existem pessoas que não se emocionam tanto, que se controlam mais frente a um evento desastroso.”

Sim, existem, mas mesmo elas têm emoções e sentimentos sendo disparados a todo momento, porém, essa pessoa tem uma extraordinária capacidade de promover a razão para o 1º plano para tomar uma decisão mesmo estando impactado por emoções.

É claro que para quem se emociona menos, se impacta menos é mais fácil promover a razão. Para quem se emociona mais, é um desafio maior.

E mesmo para os ditos racionais, eles tomam decisões movidas por seus sentimentos, porém, eles têm uma maior capacidade de justificar sua atitude através de uma argumentação racional. Esse é também um conhecido mecanismo de defesa chamado racionalização.

A racionalização é um mecanismo de defesa do inconsciente, no qual a pessoa realiza um esforço criativo para justificar uma atitude que teve como base uma decisão emocional. A racionalização tem como objetivo proteger a pessoa de entrar em contato com conteúdos reprimidos, dos quais ela não conseguirá dar conta.

Por exemplo: um pai que bate no filho porque sentiu raiva de sua desobediência e justifica que isso é para educa-lo. Primeiro vem a reação e depois vem a justificativa.

Para esse pai, talvez, admitir que sentiu raiva do filho seja algo muito errado, então, ele suprime a emoção e fica apenas com a justificativa. Mas a raiva está lá e o seus efeitos também.

Quem nunca sentiu o estômago queimar frente a uma discussão acalorada que atire a primeira pedra! Você pode até ter se controlado, mas o seu estômago, coitado, ardeu de raiva. E isso não é equilíbrio emocional.

Ter equilíbrio emocional é você conseguir não ser tão afetado pela discussão a ponto de seu estômago queimar. É você entender tanto o seu funcionamento interno que você consegue ir se acalmando naturalmente durante a discussão até que ela não signifique tanto para você.

“Como eu faço isso, Vanessa?”–  Você vai me perguntar.  

Para começar eu listo 5 atitudes para você iniciar o seu desenvolvimento emocional:

1. Aumentar o autoconhecimento:

Através de cursos, livros, coaching, terapia e saindo do automático, observando mais seus pensamentos e comportamentos

2. Aumentar a capacidade de decisão

Desenvolva o hábito de parar e respirar antes de tomar uma decisão em momento crítico.

Identifique o que está sentindo antes de agir e pondere se esse sentimento irá te auxiliar ou te atrapalhar.

Se for um sentimento que te atrapalha, acolha e faça algo para drená-lo.

Por exemplo: Recebeu um email que te deixou com raiva? Pare, respire. Identifique que você está com raiva e que responder de volta não será positivo. Levante-se e vá dar uma volta, tomar um café ou escutar uma música para se acalmar.

3. Ajustar expectativas

Você acredita que ser perfeccionista é bom, que isso melhorar seus resultados? Ok, mas entenda que a perfeição não existe, pelo menos para nós humanos que somos falhos.

Entenda que a vida é feita de imprevistos, nem sempre o que você quer vai acontecer.

Concentre-se nas soluções e não nos problemas e abra mão da tentativa do controle total das coisas.

Afinal, o que você controla? A gente está aqui fazendo uma baita força para controlar os sentimentos e até isso é um desafio!

4. Lidar com frustrações

Frente a frustração identifique os seus sentimentos, não fuja, não tente se anestesiar.

Mapeie as situações que te frustram e entenda que os erros fazem parte do processo. Busque aprendizados no erro ao invés de punição.

5. Reconhecer limites

Identifique seus pontos fortes, mas também os pontos fracos.

Crie estratégias para diminuir os pontos fracos.

Seja compassivo consigo mesmo, ou seja, perdoe seus limites assim como você perdoa quando alguém que você ama erra ou não consegue fazer algo.

E finalmente, entenda quando é a hora de parar ou desistir. Saber a hora de desistir é um saber que se aprende e se cultiva.

Como qualquer aprendizado, ele leva tempo para ser instalado e você irá aprimorar o equilíbrio emocional com a prática.

Já ouviu meus podcasts sobre como instalar um hábito? Ouça agora e motive-se a começar a mudança que você deseja.

Vamos nessa?